sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

José

No final de novembro de 2009, postei um dos poemas que mais gosto: Mundo Grande do Carlos Drummond de Andrade. Hoje aconteceram pequenas coincidências. Acordei pensando em outro poema do Drummond e ontem uma simpática leitora deixou elogioso comentário lá naquele poema!

JOSÉ
Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?


3 comentários:

Uma Música Por Dia disse...

José, para onde?

Renato Veríssimo disse...

cara, eu amo o seu blog. Você não tem noção.

Muito obrigado por todos os vídeos, músicas e poesia que tem dividido com nós leitores.

Uma Música Por Dia disse...

valeu, meu camarada!